"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


22.1.18


Pequena prece

Pedi-te que partilhasses
pão
e sal comigo.
Assim aos domingos jamais tornaria a temer
o salgado.

Tu porém cantaste na tua solidão
obscuras incompreensíveis
notas.

Apenas te ouvia dizer
o corpo,
o corpo
(da alma casa).

Marigo Alexopoulou 
(photo Melva Cornell)

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21.1.18


Sonho 

Penso que devo ter adormecido por algum tempo;
Pois quando acordei tinhas vindo e partido.
Apenas algumas flores permaneciam -
Flores que não podiam sequer dizer quem eram...
E uma fragrância vaga e suave no ar.

Esta noite tenho de sonhar um sonho mais longo
Para que as flores falem
E a sua fragrância estenda um trêmula ponte
Ente nós.

 Purushottam Shivaram Rege 
(trad. Cecília Rego Pinheiro) 
(photo Marlon Brando & Maria Schneider)

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19.1.18


Força

Desmancha o nó,
tira a ferrugem,
espana o pó.
Empurra o pesado,
cola o quebrado,
abre o dobrado,
cerze o rompido,
coça a coceira,
gruda o trincado,
pensa o ardido
e faz brincadeira do verso
chorado;
que a vida é rendeira
de sedas ou trapos,
de rendas, farrapos
ou fios de algodão;
que a fibra é comprida e o mundo
artesão.

Flora Figueiredo
(photo Ingrid Bergman)

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18.1.18


 Não te quero só pra mim
e nem poderia.
Quero-te para ti mesmo
E para a tua própria vida.
Quanto mais fores
O que quiseres
Mais serás o que eu queria.

 Luis Poeta 
(photo Virna Lisi)

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16.1.18


O teu desenho 

Aprendi a desenhar-te,
a ouvir-te
sem ver-te
sem saber-te.

A tua voz
adivinha-me os traços,
revela-me as linhas,
projecta-me as sombras,
enche-me os espaços.

E sem falares
apareces-me,
em figura esboçada,
silhueta,
esfinge,
como beleza desenhada.

 José Gabriel Duarte
(photo Marilyn Monroe)

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13.1.18


guarda-chuva

meu coração tem
forma de guarda-chuva
sob 
ele
es
tás
a
sal
vo

 xilre 
(photo Mickey Rooney & Judy Garland)

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12.1.18


 Se me deixares, eu digo
O contrário a toda a gente;
E, neste mundo de enganos,
Fala verdade quem mente.
Tu dizes que a minha boca
Já não acorda desejos,
Já não aquece outra boca,
Já não merece os teus beijos;
Mas, tem cuidado comigo,
Não procures ser ausente:
- Se me deixares, eu digo
O contrário a toda a gente.

 António Botto 
(photo Mirna Loy)

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11.1.18


As coisas lentas

Fumo demasiado depressa o meu cigarro apagado. Os cigarros fumam-se lentamente ao espelho fixando um único dos nossos rostos. Pois bem: na casa só nos cacos há reflexos. Os rostos suspendem-se entre nós e nós, as letras das palavras. Os rostos aguardam-se, observam-se, ao longe. E não há fumo que os evole. Talvez por isso: nunca aprendi a acender um cigarro por ser absolutamente desnecessário aprender a aprender a acender um cigarro. Na casa onde tu fumavas cada cigarro era uma letra. De cada vez que o filtro te tocava os lábios eu perguntava: como te chamas? À superfície do espelho, o teu vagar respondia-me até ao esquecimento de nós. Talvez por isso: tento acender um cigarro. Apago-o antes que me chegue aos lábios.

Está frio neste lugar. A boca abre-se como uma coisa lenta em forma de espanto.

Inês Fonseca Santos
(photo Julie London)

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9.1.18


Só eu me posso julgar. Eu sou o meu passado, eu sou o motivo das minhas escolhas, eu escolho o que tenho dentro. Eu sei quanto sofri, eu sei quanto sou forte e frágil, eu e mais ninguém. 

  Oscar Wilde 
(photo Humphrey Bogart) 

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8.1.18


Quem ama ama. Quem ama só ama. É essa a sua missão, a sua ocupação, a sua função: amar. Sem olhar a como. Sem olhar a porquê. Aliás: geralmente amar, quando é amar, é sem porquê. É simplesmente porque é. Amar, quando começa a concentrar-se em porquês e em comos e em quandos, já não é amar. Amar racionalmente é o começo de não-amar. Se pensas sobre como amas, quando amas e porque amas: então é porque já não amas. 

  Pedro Chagas Freitas
(photo Ramon Novarro & Norma Shearer)

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3.1.18


Minha matur(a) idade

Na minha idade madura, 
a vida a escorrer pelos dedos
Vejo no tempo antigo
Mares em que naufraguei
Fogo em que já ardi
Veredas que já pisei

Na minha matur(a) idade,
alma a transbordar no peito
Sonho o tempo que virá
Lagos de águas tranquilas
Chamas de terno langor
Caminhos de sol e sombra

Sempre eu
Inteira
No tempo de ontem
Ou de amanhã

 Lique 
(photo Brigitte Bardot) 

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2.1.18


Assim será 

Um dia, minhas mãos 
Não vão mais um gesto esboçar... 
Um dia, meus pés 
Não mais tropeçarão no meu andar... 
Um dia, 
Não mais meterei os pés pelas mãos, 
Na vida que me foi dada, 
tirada... 

Um dia, 
Restarão (ainda) os toques sonhados, 
Os passos imaginados, 
A vida que andou 
Pelos meus pés, 
Pelas minhas mãos deslizou... 

Depois de tanta escuridão, 
Assim será – um dia... 

 Dora Brisa
(photo Bulle Ogier)

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1.1.18


Surge a manhã de um novo ano. 

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade 
(photo gif Marilyn Monroe)

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31.12.17


pedaços

posso ter mil faces
espalhadas
mil bocados de mim
rasgados 
pedaços de um todo
partido
a vida é só uma
e eu nela
sem multiplicação
de caminhos.

lique
(photo Audrey Hepburn)

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30.12.17


Espelhos

Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos veem.
Os esquecidos nos lembram.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, eles se vão? 

Eduardo Galeano
(photo Jane Russell)

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29.12.17


Presente 

ainda ponderei: 
uma caixinha de música?!
haverias de gostar.
porém enterneceu-me a bailarina
aprisionada
sempre a postos, em pontas,
à espera de corda
para poder dançar
haverias de gostar…
libertei a bailarina.

optei por um relógio
[de corda] para te presentear.

 Lídia Borges 
(photo unknown)

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28.12.17


silêncio perfeito
 
 ao fim do dia sentas-te em silêncio 
e pensas o pensamento; 
pensas o poema, o acto de pensar 
e o silêncio, o teu próprio silêncio; 
e pensas no silêncio daqueles que talvez 
devessem ter dito alguma coisa 
num determinado momento da tua vida; 
porque o silêncio só é perfeito 
para quem quer dizer, 
não para quem quer ouvir

  miguel godinho
(photo Merna Kennedy)

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